
Por Victor Uchôa, em 16.05.2008, de Braga/Portugal
Então eu fui surpreendido com um e-mail de Juliana Kalid, grande amiga que, para o seu novo blog, pedia uma crônica sobre minha relação com a cerveja na Europa. A surpresa não reside em ter que discorrer sobre tão querida matéria. A surpresa está em alguém pedir uma crônica a mim, que de crônica, só entendo da dor no calcanhar esquerdo que me acompanha há anos.
Porém, perseverante, tento. Daí, lembro do primeiro gole que tomei após cruzar o Atlântico, há oito meses: Super Bock, marca portuguesa. Ali, redefini conceitos para me adequar à nova vida. A cerveja européia tem mais álcool e por aqui se bebe, majoritariamente, cerveja tipo Ale, ou variações do tipo Lager com algumas diferenças em relação à Lager Pilsen, de maior consumo no Brasil.
Caberia uma explicação sobre a diversidade do processo químico de produção e fermentação de tantos tipos de cerveja, mas minhas notas de Química sempre foram péssimas e o Google está aí é pra isso mesmo. Foco essa ladainha no ritual da mesa de bar, o melhor lugar do universo para se jogar conversa fora.
Existem algumas diferenças básicas entre “tomar uma” no Brasil e na Europa. Pra quem nasceu nos trópicos, talvez a mais marcante seja a temperatura, do ambiente e do precioso líquido. Não importa quão frio esteja, brasileiro gosta de cerveja gelada. Europeus contentam-se com a temperatura cházica.
Pior do que isso, só o fato de que no Velho Mundo é impossível tomar alguns goles petiscando o que deve obrigatoriamente ser petiscado com cerveja: carne do sol com mandioca, caranguejo, camarão ao alho e óleo e acarajé cortadinho com vatapá, dentre outras iguarias que tanto fazem falta nessa banda do planeta.
Não importa se estudante quebrado ou membro do Parlamento Europeu de Bruxelas, quem sentar numa mesa de bar na Europa, na praia, na montanha ou na cidade, dificilmente achará algo diferente de um sanduíche de frango ou um misto quente. É o fim do mundo.
Mas esses empresários sem visão empreendedora ganham o que merecem. Pelo menos eu e meus amigos fazemos nossa parte na tarefa de transformar a Europa num lugar melhor pra se viver. Em cada bar que sentamos, a primeira ação é avaliar as formas viáveis de sair dali com a maior quantidade possível de copos. E assim, já não sei como levarei tantos no meu retorno para o Brasil.
Fato é que quanto mais saborosa a cerveja, mais legal é o copo, o que nos leva à velha discussão sobre a melhor cerveja do mundo, muito comum na Europa. As belgas Stella Artois e Leffe e a irlandesa Guinness são referências recorrentes. Todas ótimas, atesto. Mas na minha humilde opinião, um barril de cada uma dessas não vale uma tulipa das alemãs Erdinger e Franziskaner, ambas de trigo. Sabor e textura inigualáveis. E o copo Erdinger é o mais legal da minha prateleira.
Porém, como estudante quebrado, não é todo dia que posso degustar em tão alto nível. O normal é cair pra dentro da já citada Super Bock ou da também portuguesa Sagres, que não deixam a desejar. Quando muito, invisto em Carlsberg, dinamarquesa que, além de muito boa, me faz sonhar com suas promoções de levar um vivente à final da Eurocopa 2008.
Na categoria “Goles em Trânsito”, destaque para a suavidade da espanhola Estrella Galicia, (a)provada em Santiago de Compostela. Na Itália, pizza de prosciutto crudo casa perfeitamente com a birra. De frente pro mar do Algarve português, um brinde com a nacional Tagus, que não tem nada demais, mas valeu pelo ambiente. Ainda no Algarve, algo da já conhecida mexicana Corona, que com um limão no gargalo tem o seu lugar. Visitando a Terra da Rainha, muito da australiana Foster`s, mais barata nas lojas de indianos. E lá, claro, de pub em pub, é impossível que eu lembre todos os experimentos. Consigo citar a famosa Budweiser, tcheca, além das britânicas Carling e John Smiths, a primeira bem encorpada, a segunda um tanto quanto ácida.
Não tive o fermentado prazer, mas um amigo descreveu sua visita à fábrica da Guinness, em Dublin, com o mesmo brilho no olhar do garoto Charlie ao entrar na fábrica de Willy Wonka. Para breve, planejo uma viagem em que pretendo passar por Amsterdam e Praga. A República Tcheca tem o maior consumo do planeta de litros de cerveja por habitante e é lá que está a região da Boêmia, onde se produz a melhor cevada do mundo. Ou seja, sendo Praga bonita ou não, estarei satisfeito. Quanto a Amsterdam, expectativa pela visita à fábrica da Heineken, além, é claro, do contexto Amsterdânico.
Por fim, após tanta prosopopéia, me raciocino todo e concluo que na Europa podem até estar as melhores cervejas do mundo, mas nada se compara a “tomar uma” na Bahia. É onde posso encher o peito e dizer em bom tom: “Ô, Vitória (ou as variantes “Minha Pedra”, “Minha Corrente”, “Grande” e “Sacanagem”), traga aquela que você guardou pra tomar depois que fechar. Cú de foca, meu pai!”. Então, tomo alguns goles enquanto petisco um acarajé cortadinho com vatapá, vendo o sol mergulhar na Baía. Ah, “e se calhar”, diriam os portugas, com um grande amor massageando meu calcanhar.
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