A tarefa era simples, acompanhar durante um fim de semana um time qualquer, sua rotina de treinamento, a movimentação da concentração e os bastidores de uma partida. Simples não fosse o fato de a equipe ser exclusivamente leiga no assunto futebol, para não mencionar o detalhe do olhar unicamente feminino, o que não quer dizer nada, mas no nosso caso não ajudou.
O esporte em questão é o mais praticado e reverenciado no mundo e não seria eu quem ficaria imune aos encantos da bola, sou torcedora, pouco fanática, displicente até. Sou Bahia desde não me lembro quando e sem razões claras. Acabamos na concentração do Vitória e vi que torço sim e muito, rodeada pelo rubro negro, meu lado tricolor sentiu cá seus incômodos.
Fazia calor nas redondezas do Parque Ecológico Canabrava, era sábado, 3 de maio, véspera da decisão do campeonato baiano. No caminho para o estádio Manoel Barradas, conhecido Barradão, descobrimos até o Jardim Botânico de Salvador, julgado inexistente até então. Reinaugurado em 1991, o Barradão está longe de ser um estádio de ponta, desses que a gente vê sediando jogos de Copa do Mundo, mas há de convir que é um espaço moderno e cumpre com as exigências da FIFA para realizar jogos internacionais. Quando chegamos, o treinamento acontecia atrás do campo oficial em três diferentes quadras: equipe principal treinando em uma, equipe de juniores treinando em outra e uns jogadores em separado. Confesso que imaginava tudo muito maior, da televisão parece que o campo é de proporções gigantescas, Mcluhan tinha razão.
O clima não parecia de véspera de decisão. Em treino coletivo titulares e reservas se enfrentavam numa partida descontraída e amistosa. Vanderson, volante da equipe profissional, em certa altura se machuca, “aqui foi besteira, o pessoal pega leve que amanhã tem jogo”, conta o atleta que revela que desde que entrou para o futebol perdeu a capacidade de torcedor e tornou-se da qualidade de jogador, “meu time é o do momento”.
O treino segue e o mundo do futebol vai se descortinando. Roque Mendes, assessor de comunicação do Vitória, conta mais: “a rotina aqui é dura, porque sim, há rotina, cada dia da semana os jogadores têm uma série pré-estabelecida de atividades, todo mundo acaba virando família mesmo, não tem como ser diferente, eles ficam concentrados às vezes três, quatro dias, passam mais tempo aqui do que em casa”.
Um carro pára, saem duas crianças e uma mulher. Filhas e esposa do zagueiro Marcelo Batatais que escapa por um momento do campo e se dirige ao estacionamento para ver a família. “É complicado ser esposa de jogador, é uma privação. Sempre estamos mudando, quando eu e as meninas começamos a nos acostumar, a conhecer algumas pessoas, temos que nos mudar novamente”, conta a mulher. “Eu tenho saudade de meu pai, tem dias que ele não vem em casa e quando ele joga e se machuca eu choro”, conta uma das filhas. “Sei que é complicado, mas o futebol foi uma boa oportunidade para mim e para minha família, posso ter uma boa qualidade de vida e dar isso às minhas filhas. Os contratos com os times são cada vez mais curtos e isso acaba refletindo nessa vida sem pouso certo, mas elas entendem. O tempo de carreira de um jogador é curto, a hora de dar o gás é agora ”, conta o jogador.
O meio-dia se aproxima, o time volta a treinar. Ivan Andrade, repórter da TV Bahia, chega e cumprimenta os jogadores - parece já ser de casa. Ao lado do campo de treinamento ele faz a passagem para o jornal que irá ao ar logo mais. Nos indica o jogador Rodrigão para conversarmos, diz que ele é “bom de papo”. O atacante se aproxima e faz juz à fama, a conversa com ele pode ser conferida no arquivo de vídeo.
Chega o meio-dia e o treino se encerra, mas ainda não acabou. É hora dos jogadores se recolherem e concentrarem antes da partida no dia seguinte contra o Itabuna. As matérias com a cobertura do domingo, bem como curiosidades e personagens interessantes, podem ser conferidas nas partes II e III de “Futebol sem bola”.
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